.Não podemos falar sobre o Carnaval sem nos reportarmos ao velho Arraial da Penha, considerado por alguns historiadores como o Berço do Samba. Foi aqui, que o samba nasceu, deu seus primeiros passos e venceu o preconceito contra o samba e contra o negro.
E não foi fácil!

Como sabemos, a Festa da Penha data de 1728. No início, religiosa e tipicamente portuguesa. Já em 1748 , um registro é lacônico: “...depois da oração vinham os cantos, as histórias, as novidades. Primeiras expressões cariocas de cultura popular urbana.”
No final do séc. XIX, com o fim da escravidão “o gosto da romaria passa do lusitano ao negro, contamina a mestiçagem que surgia e infiltra-se em toda a gente”.

Vale destacar o fato de Padre Ricardo, Capelão da Irmandade da Penha nesta época, ter sido abolicionista e ter lutado contra o regime de escravidão, além de ter criado em sua residência, o “Quilombo da Penha”, que acolhia os escravos fugidos de seus senhores. Este fato foi determinante para a grande presença negra na festa. Outro fator determinante era “a presença das tias baianas, responsáveis pela permanência e expansão das tradições africanas na Festa da Penha, na Cidade e quiçá, em todo o Brasil e que são homenageadas anualmente com a ala das baianas nos desfiles de escolas de samba”.

Entre as baianas do Arraial da Penha, o nome que aparece com maior destaque é o de tia Ciata - “Ao redor de sua barraca formavam-se rodas de samba nas quais mostrava sua habilidade de partideira. Contava com a presença dos amigos Heitor dos Prazeres, Donga, Sinhô e Pixinguinha, muitos ainda, ilustres desconhecidos”.

“Dentro do âmbito das festas populares, nenhuma evidencia com mais precisão a nossa evolução social e a nossa formação étnica que a Festa da Penha, cujo entusiasmo não descresce nem com as exigências da Irmandade, nem com as proibições da polícia”.

A polícia, que foi criada para defender os interesses dos ricos e da elite (até hoje ainda é assim), muitas vezes foi citada nos jornais da época como promotora da violência.

Em 1906 , após um ano conturbado por brigas sérias, o samba foi totalmente proibido no arraial da Penha.
Em 1907 , foi permitido cantar sambas, mas os pandeiros e os instrumentos foram proibidos. Os populares não se rendiam e criavam alternativas. Nesse ano acompanharam os sambas com as palmas da mão ou, como no ano seguinte, batendo nas garrafas com pedaços de pau.

Em 21 de outubro de 1912, o Jornal do Brasil assumia a posição de que a polícia devia dar liberdade aos foliões...“ O samba , o batuque e as danças típicas eram apreciadas por pessoas de todas as classes que admiravam o desembaraço e a destreza dos nossos patrícios numa dança nacional tão apreciada até por estrangeiros”.

Em outros anos eram proibidos a venda de bebidas alcoólicas, a presença de ranchos, blocos e rodas de batucadas na Penha. (NR. Alguns historiadores contam que o samba nasceu em 1917, na casa da tia Ciata, no Estácio. Em nossa pesquisa constatamos que em 1906 o samba foi proibido na Penha e permitido em 1907, portanto, ele já existia antes de 1917).
Inúmeros desmandos foram cometidos pelas forças repressivas sobre os populares, era quase uma operação de guerra.
“Muitos conflitos, durante vários anos, ocorriam no arraial e fora deste, por conta da intervenção malévola dos mantenedores da ordem”.
A pressão dos populares não foi em vão. Em 1916, o Chefe da Polícia liberou a realização dos sambas e batuques, ponto alto das diversões populares da festa. Inúmeros ranchos e grupos carnavalescos desfilaram. Deixavam a barraca da famosa tia Ciata e percorriam o arraial, acompanhados de centenas de foliões.

O 1º Concurso de Músicas Carnavalescas foi realizado na Penha, em 1917, a partir do prélio travado entre Sinhô e Caninha.
Importante destacar ainda, o grande público que marcava presença na festa. Em 1897, o jornal “PAIZ”, de 03 de outubro informava: “Se antes dos comboios da Estrada de Ferro eram 50.000 os devotos, hoje não fica mentiroso quem os calcula em 120.000”.
Como sabemos, o trem da Estrada de Ferro do Norte, a nossa atual Leopoldina chegou à Penha em 23 de outubro de 1886.
Hoje, alguns historiadores cometem uma grande injustiça quando falam da origem do samba e do Carnaval. Esquecem ou omitem esta importante página da história. Mas, não deixaremos que esta página seja apagada. O samba nasceu e se criou na Penha. É a bandeira que levantamos.
Precisamos reparar esta injustiça homenageando os artistas e populares, que por anos lutaram na Penha, contra a repressão e contra a discriminação do que é hoje a maior festa popular do Brasil.

Outro fato importante e que merece destaque: quem foi Tia Ciata? Como ela surgiu no cenário do Rio de Janeiro?

Hilária Batista de Almeida nasceu na Bahia, em 1854. Chegou ao Rio de Janeiro em 1876, com apenas 22 anos. E foi como barraqueira na Festa da Penha que conheceu os grandes nomes da música da época e tornou-se a famosa e respeitada Tia Ciata.
Destacamos a grande importância de Ciata na expansão da cultura afro no Rio de Janeiro.

Em “ Tia Ciata e a pequena África no Rio de Janeiro ” encontramos: “Já depois da metade do século XIX, quando a festa (a Festa da Penha) passa a se estender por todos os domingos de outubro, ao lado dos portugueses que comiam e entoavam seus fados na grama, estimulados pelo vinho generoso nos tradicionais chifres de boi ou pela cerveja preta ‘barbante', começam a se ouvir os sambas de roda dos negros animados pela ‘branquinha' nacional, a se armar batucadas ‘em liso' ou ‘pra valer' jogadas pelos capoeiristas, principalmente quando a noite caía e subia a temperatura etílica da festa.” (pág. 108)... Para Tia Ciata e sua geração de baianas-festeiras tradicionais, (...) a festa da Penha era o momento de encontro de sua comunidade de origem com a cidade, desvendando para os ‘outros' essa cultura que subalternamente se preservava e que era a cada momento reinventada pelo negro do Rio de Janeiro. Mas sua morte, em 1924, encerra uma época.” (pág. 115).

Em “ As impressões de Raul Pompéia na Festa da Penha, em 1888 ” (Fonte: Jangada Brasil nº 2 – Outubro de 1998), encontramos as seguintes passagens: “No domingo, a gentinha miúda da cidade moveu-se em romaria ao outeiro da Penha, distante algumas léguas daqui para as bandas do norte. É de ver-se a massa de humanidade que anualmente se transporta em terrível caminhada de sol e de pó, obediente ao costume tradicional ou às obrigações contraídas pelas promessas beatas, ou ávidas simplesmente da orgia campestre que o rendez-vous religioso ocasiona...A Penha é um povoado miserável de alguns casebres que se desmancham em pé, situada em uma várzea arenosa de beira-mar. Um semi-círculo de morros volteia sobre o horizonte, por um lado, oferecendo a espaços, através da vegetação, nodosidades redondas de pedras ásperas cor de cimento, como cachoeiras enormes sem água. Em frente, devassa-se a Guanabara azul...Mais perto, do lado oriental, eleva-se em rampa vagarosa um outeiro de uma só rocha bruscamente concluído por um precipício. No sítio mais alto, a olhar para leste, fica a igrejinha caiada de Nossa Senhora da Penha, de seis janelas de outão e uma torre...Depois da refeição, vêm as danças e os cantos. Um delírio de samba e fados, modinhas portuguesas, tiranas do norte. Uma viola chocalha o compasso, um pandeiro acompanha, geme a sanfona, um negro esfrega uma faca no fundo de um prato, e sorri, negríssimo, um sorriso rasgado de dentes brancos e de ventura bestial. A roda fecha. No centro, requebra-se a mulata e canta, afogada pela curiosidade sensual da roda...Depois da mulata, dançam outros foliões de dois sexos. Os circunstantes batem palmas, marcando a cadência e esquecem-se, quase a dançar também, olhando o saracoteio lento, ou as umbigadas desenfreadas, dos fadinhos de uns ou da caninha-verde de dois pares.
           – Ai, meu sertão!… grita alguém.
           – Ai, senhora Maria, suspira outro, lembra-se dos Remédios de Lamego?…
           As rodas fecham-se por toda parte, na soalheira e na sombra, na estrada e no campo, sob os tamarineiros. Entretanto transitam de permeio grupos carnavalescos dos mais valentes, romeiros, enroupados à fantasia, zabumbando o zé-pereira, bimbalhando ferrinhos, arranhando guitarras, guinchando sons impossíveis de requinta e gaita. As praças de polícia montada circulam caracolando, erguendo turbilhões de pó. O sol, por entre as cordas de bandeiras e lanternas, vem ferir a terra e eleva-se na poeira fulgente como um nevoeiro de cal. O ar queima. Passam na multidão gigantescos chapéus de palha, de reflexos insuportáveis, que parecem tecidos de palha e fogo”.

Eis aí, um pouco, da história do samba na Penha. Não queremos destronar nenhum outro bairro, mas não podemos deixar que esta importante parte da história do samba no Rio de Janeiro continue no esquecimento.

Viva o samba!

Viva a Penha!!!

  • Produzido por:

Alberto Barbosa da Fonseca
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